VISITA AO PRESÍDIO PROFESSOR ANÍBAL BRUNO- A MAIS INCRÍVEL EXPERIÊNCIA.

Publicado: junho 14, 2010 em Uncategorized

Na última sexta-feira, 11 de junho, estive no Presídio Professor Aníbal Bruno e venho por meio deste post relatar o que vivi. Foi meu primeiro contato com a realidade carcerária e achei válido registrar.

Na imundice do pátio, Manuel[1] viu um bicho. Eu vi milhares. É como seres desprovidos de humanidade que os presos no Presídio Professor Aníbal Bruno são tratados em sua maioria. Como seres desprovidos de dignidade, comem, dormem e (sobre)vivem a maior parte dos encarcerados. Homens vivendo em condições insalubres e muito aquém do que estabelecem as legislações que versam sobre o tema. O ar nos pavilhões é diferente, pesado e tem um péssimo odor.

Me deparei com Homens que com certeza contrariam o senso comum, vi partir deles um respeito que se encontra em extinção em muito homem que goza de liberdade plena. Ao entrarmos no pavilhão, os que estavam deitados, levantavam, enrolavam os finos colchões ou afastavam suas camisas e papelões utilizados para forrar o chão, para que pudéssemos passar. Os que estavam sem camisa, se vestiam e em nenhum momento ouvimos nada ofensivo ou constrangedor. Pelo contrário, agradecimentos pela visita e pedidos (muitos pedidos). Pediam tênis, remédios, recados a serem dados aos parentes e atendimento médico.[2] É possível ainda afirmar que o maior desejo da maioria é de serem incluídos, sentirem-se parte de alguma coisa e não serem mais esquecidos do que já são. A Pastoral Carcerária levou um trio de forró pé de serra para tocar dentro dos pavilhões como um “São João Itinerante” e até quadrilha improvisada foi dançada. Grandes rodas se abriram, alguns nos davam as mãos, outros ficavam na expectativa de serem “convidados”.

O pavilhão da Disciplina foi o que mais chamou minha atenção: celas trancadas, baldes sujos onde a comida chegava, todos muito eufóricos querendo interagir de alguma forma, perguntas simples feitas a um era respondida por dois ou três.  Houve um momento em que uma integrante da Pastoral Carcerária anotava as queixas e pedidos de uma das celas e o Pavilhão inteiro aplaudiu! Aplaudiu a existência de alguém que se importa e se incomoda com aquela realidade subumana em que eles se encontravam. Na saída desse pavilhão, os presos estendiam as mãos para cumprimentos.  Outro ponto que é válido mencionar é a precariedade da assistência jurídica prestada a eles, pois foram presentes os pedidos de acompanhamento de processos que há meses não se tem notícias, penas de 8 anos que já tinham 10 de cumprimento. Nos portões de entrada existem chapas que impedem a visualização do interior/exterior do presídio.

Não saí de lá com nenhuma visão romântica dos que integram a população carcerária, ali se encontravam transgressores da ordem pública que tanto deve ser preservada, mas que é duplamente violada a partir do momento que o Estado também é agressor ao não proporcionar o mínimo de respeito a esses indivíduos em um local que deveria ser de recuperação. Na chegada, pedi que Deus iluminasse o meu caminho lá dentro, ao sair, pedi que o caminho iluminado fosse o deles, pois, constatei uma premissa já existente no Meu mundo das idéias: que acima de tudo existe ali dentro Homens providos de dignidade, coração e alma que se encontram nesses ambientes. Durante a visita, tudo ocorreu perfeitamente bem, o primeiro contato com a realidade carcerária foi impactante e imensuravelmente construtivo. Que venham as próximas visitas.


[1] Alusão ao poema “O Bicho” de Manuel Bandeira que vinha todo o tempo em minha mente: “… não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, Meu Deus, era um Homem”. [2] No pavilhão da Disciplina havia um preso com a perna quebrada há 10 dias resultado de uma queda após tentativa de fuga.

Comentários
  1. Macelly disse:

    Madalena, acho grandioso esses gestos q partem de vc na tentaiva de ajudar aos q precisam, e com o pessoal do cárcere não é diferente. É mt bonito (depois q te conheci td tem sido mt bonito, pq será?!) ver q vc está trabalhando neste projeto com vistas a melhorar a qualidade de vida de pessoas tão necessitadas, q vivem num mundo a parte, num submundo. Isso mostra a humanidade q vc possui, e q infelizmente falta em muitos q só pensam em si. Deve mesmo essa sua consciência e vontade de ajudar os outros ser uma dádiva, um presente de Deus. Use isso com toda a inteligência q vc possui e quem te agradecerá serão os presos, principalmente, por tornar mais feliz ou menos difícil a curta passagem de cada um deles aqui na terra.
    Ahh, obrigada por fazer os meus dias mt mais felizes!!!! Vc eh uma superparte da minha felicidade!
    Bjosss

  2. madalena disse:

    Querida, agradeço de coração, cada palavra sua! Mas não sou digna de tanto, estou trabalhando nessa pesquisa com muita satisfação, isso é fato, mas saiba que o propósito não é apenas melhorar a vida deles, mas também as nossas que uma hora ou outra recebemos de volta ao convívio Homens oriundos desse submundo que você mesma mencionou. Ah, fico sempre muito feliz em saber que de alguma fora torno o seu dia melhor! Isso sim é o bom da vida.

    Volte sempre!

  3. Wendy disse:

    De todos os textos que eu já li, e olha que como o assunto me interessa bastante, esse, sem sombra de dúvidas, foi um dos melhores. Confesso que nada melhor do que ouvir da ‘boca’ de alguém que realmente foi lá, pois de teoria muitos já estão cansados. Parabéns, Madá. Ótima leitura… Apesar do assunto ser denso você escreveu com uma simplicidade que estimula a leitra de uma forma não cansativa e totalmente cativante, passando o que está lá dentro para os que estão aqui fora e só possuem uma leviana ideia. Gostei muito, muito mesmo. Parabéns de coração.

  4. madalena disse:

    Oi Wendy! Te agradeço!

    Não coloquei tudo que vi para não ficar muito extenso e cansativo, mas aspectos como: celulares, infiltração, esgoto a céu aberto, CACHORROS (MUITOS CACHORROS!), comércio, sopa em balde de tinta, réu primário misturado com reincidentes, mesa de sinuca com ficha de R$1,00, carrinho de hot dog, enfermaria com presos pelo chão… É tudo muito cruel e real.

    Visitarei outras unidades prisionais e com certeza publicarei alguma coisa!

    Volte sempre!

  5. Danyllo Benício disse:

    Madá, olhando tudo isso só quem sabe é quem vive ou presencia, coisas relatadas nesse post não estão a vista de muitas pessoas. É triste! mas e a solução!? o arrependimento?! são fatores que não existem dentre eles, uns até chegam a dizer que gostam é difícil de se entender. Tenho certeza que foi um fato de grande importância em sua vida e você é uma grande merecedora de tudo isso, post muito lindo e digno. Sabe que sou seu fã, sucesso. Beijo!

  6. Macelly disse:

    Mada, nao adianta todas essas suas réplicas! A verdade é q cada vez q vc diz algo, mais vc cresce aos meus olhos! É melhor eu ficar calada pra nao te encher de mais elogios, afinal tudo em excesso eh prejudicial, até mesmo elogios. Mas disse e agora repito, sou sua fã. Quisera toda a sociedade ter o pensamento q vc tem, e mais do q isso ( pq pensamentos em si nao bastam), ter a ação q vc tem! Mas chega de elogios…
    Bjoos

  7. madalena disse:

    Macelly, tu és uma figura! kkkkkkkkkkkkkkkkk, CALEI-ME, então! Mas olha, não tenho problema com elogios, prezo sempre pela humildade.

    Danyllo, tu falasse um negócio interessante… os que estão lá dentro e não tem o desejo de mudar… O assunto é digno de outro post! (risos)

    Valeu!

  8. victor disse:

    Mada tou arretado queimei meus neuronios pra escrever um comentario bem bonito falando dificil e deu erro, vou resumir td falando no popular, seu texto ficou do kralh*.
    bju

  9. Tam disse:

    Poxa me desculpa o vocabulário, mas put* caralh* doido, ficou muito fera todo esse trabalho! Muito massa essa atitude sua, tendo iniciativa, boas ações e praticando a caridade, que não é só se doações materiais como muitas pessoas pensam! Teve disposição de ir lá e o mais importante, disposição pra ouvi-los! Caraca muitos detalhes ainda né? Pow curto muito esse seus trabalhos, cada vez você me surpreende mais! Não tenho mais palavras para me expressar aqui, e acredito eu que não chegariam aos pés do que você merece ouvir.. Minha irmã de coração desejo que seus caminhos se abram e que você atinja todas as suas metas, que tenha inumeras conquistas pela frente!! ACUNHA Mads! fica com Deus, se cuida, saudades! bjunda

  10. Ana Maria R de Lima disse:

    Compartilho com você de sua indignação. O quadro que você descreve na visita ao presídio nos mostra com todas as tintas a falência do Estado na sua competência de recuperar os transgressores da ordem social. A finalidade da perda da liberdade como pena pelas falhas de conduta traz na verdade embutida a possibilidade de recuperação do indivíduo, a possibilidade de sua ressocialização. Várias são as causas a serem apontadas para essa impossibilidade estatal, desde o pouco caso, como se isso não fosse um problema do Estado até às impossibilidade criadas pela própria chamada evoluução dos Direitos Humanos que alguns vezes acabam inviabilizando alguns ações donEstado pelo excesso de paternalismo. Eu passei recetemente na ilha de Itamaracá,bem em frente ao presídio São João e dei um volta pela ilha. Nesta ocasião me lembrei que quando criança costumávamos ir até a ilha com meu pai e naquela época era comum encontrarmos os presidiários andando livremente com seus uniformes azuis e identificados por uma numeração. Era comum também ve-los em franca atividade, ou trabalhando nas lavouras ou fabricando artesanatos sobretudo de madeira. Era comum também ver alguns casas pequenas, onde aqueles que já estavam em final de pena ou que tinham sido condenados a penas leves em razão do tipo de infração cometidas, residiam com seus familiares que de certa forma também produziam doces e iguarias e tentavam comercializar seus produtos com os que buscavam a ilha para curtir suas praias. A penitenciária era conhecida no país inteiro com Penitenciária Agricola. que era capaz de produzir grande parte daquilo queera consumido pela população carcerária. Então com a chamada evolução dos DH, que quero deixar claro nada tenho contra a proteção dos mesmos, porém sou contra os excessos e demagogia. Veio primeiro a proibição do uso de qualquer forma de identificação da população carcerária. pois isso se constituia em constrangimento para o individuo e portanto era ilegal; posteriormente veio a proibição de que durante o cumprimento da pena o apenado realizasse qualquer tipo de atividade laboral pois isto se constituia em trabalho forçado, trabalho escravo. Deu no que deu! hoje o aprisionado passa as 24 horas do dia fazendo absolutamente NADA! isto é, ele fica já se preparando para cometer a próxima infração. Bom, claro que como toda pessoa de bom senso, condeno os excessos e tratamento vil a que estão submetidos nos dias de hoje mas o fato é que se extiguio um modelo de aprisionamento e até hoje não se apresentou nada que tornasse viável a vida carcerária o que não tira óbviamente a responsabilidade do Estado pelo caos que é a vida desses seresnos presídios. O trabalho de recuperação e ressocialização foi realmenete esquecido. É o que eu acho! vá fundo nessa história e faça uma pesquisa sobre a antiga Penitenciária Ágricola de Itamaracá.

    • Madalena disse:

      Ana,

      concordo com praticamente tudo que foi dito, mas tenho algumas considerações a fazer. A questão do trabalho na Prisão, ele não foi proibido, assistência laboral é inclusive uma das metas do Pacto Pela Vida. Algumas parcerias com empresas privadas já foram estabelecidas (empresas de fabricação de bicicletas, forminhas para doces de festa) acontece que é tudo muito tímido ainda e o resultado é o que você falou: ócio. Adorei essas memórias que você trouxe da antiga PAI, e já estou aprofundando a pesquisa sim. Vou visitar essa unidade de Itamaracá também, mas vai demorar um pouco ainda, te aviso quando acontecer e a gente conversa.

      Volte sempre!

  11. carolina disse:

    poxa mada, eu falei o que eu achei pra tu, mas tenteii dnv deixar um comentario bom, mas deu erro novamente, e eu esqueciiiii de copiar antes!!! :( só queria dizer mais uma vez que o texto esta mais do que muito bom, que a forma como vc se expressa nos passa com mt detalhes as informações e mesmo que nunca tenhamos visitados, sentimos algo muito forte! sou sua fã desde sempre, vc saaabe!! parabééns maaaaadá! quero ser assim que nem vc!!! sério mesmo! bj teamo

  12. madalena disse:

    Oi Carol! Te agradeço!

    É muito satisfatório ler comentários como os teus que me dizem que consegui chegar onde eu queria: fazer as pessoas terem uma idéia mais próxima do real (se é que assim podemos dizer) do que se passa nas prisões em sua maioria. Só uma coisa, queira ser muito melhor do que eu!

    Muito obrigada!
    (L)

  13. Flavinha disse:

    Parabéns de verdade! Cada palavra passa o sentimento e a emoção do momento. Você escreve incrivelmente bem, e vai longe. Tanto no direito como na arte que você domina, que é a boa escrita.
    Beijos

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