Na última sexta-feira, 11 de junho, estive no Presídio Professor Aníbal Bruno e venho por meio deste post relatar o que vivi. Foi meu primeiro contato com a realidade carcerária e achei válido registrar.
Na imundice do pátio, Manuel[1] viu um bicho. Eu vi milhares. É como seres desprovidos de humanidade que os presos no Presídio Professor Aníbal Bruno são tratados em sua maioria. Como seres desprovidos de dignidade, comem, dormem e (sobre)vivem a maior parte dos encarcerados. Homens vivendo em condições insalubres e muito aquém do que estabelecem as legislações que versam sobre o tema. O ar nos pavilhões é diferente, pesado e tem um péssimo odor.
Me deparei com Homens que com certeza contrariam o senso comum, vi partir deles um respeito que se encontra em extinção em muito homem que goza de liberdade plena. Ao entrarmos no pavilhão, os que estavam deitados, levantavam, enrolavam os finos colchões ou afastavam suas camisas e papelões utilizados para forrar o chão, para que pudéssemos passar. Os que estavam sem camisa, se vestiam e em nenhum momento ouvimos nada ofensivo ou constrangedor. Pelo contrário, agradecimentos pela visita e pedidos (muitos pedidos). Pediam tênis, remédios, recados a serem dados aos parentes e atendimento médico.[2] É possível ainda afirmar que o maior desejo da maioria é de serem incluídos, sentirem-se parte de alguma coisa e não serem mais esquecidos do que já são. A Pastoral Carcerária levou um trio de forró pé de serra para tocar dentro dos pavilhões como um “São João Itinerante” e até quadrilha improvisada foi dançada. Grandes rodas se abriram, alguns nos davam as mãos, outros ficavam na expectativa de serem “convidados”.
O pavilhão da Disciplina foi o que mais chamou minha atenção: celas trancadas, baldes sujos onde a comida chegava, todos muito eufóricos querendo interagir de alguma forma, perguntas simples feitas a um era respondida por dois ou três. Houve um momento em que uma integrante da Pastoral Carcerária anotava as queixas e pedidos de uma das celas e o Pavilhão inteiro aplaudiu! Aplaudiu a existência de alguém que se importa e se incomoda com aquela realidade subumana em que eles se encontravam. Na saída desse pavilhão, os presos estendiam as mãos para cumprimentos. Outro ponto que é válido mencionar é a precariedade da assistência jurídica prestada a eles, pois foram presentes os pedidos de acompanhamento de processos que há meses não se tem notícias, penas de 8 anos que já tinham 10 de cumprimento. Nos portões de entrada existem chapas que impedem a visualização do interior/exterior do presídio.
Não saí de lá com nenhuma visão romântica dos que integram a população carcerária, ali se encontravam transgressores da ordem pública que tanto deve ser preservada, mas que é duplamente violada a partir do momento que o Estado também é agressor ao não proporcionar o mínimo de respeito a esses indivíduos em um local que deveria ser de recuperação. Na chegada, pedi que Deus iluminasse o meu caminho lá dentro, ao sair, pedi que o caminho iluminado fosse o deles, pois, constatei uma premissa já existente no Meu mundo das idéias: que acima de tudo existe ali dentro Homens providos de dignidade, coração e alma que se encontram nesses ambientes. Durante a visita, tudo ocorreu perfeitamente bem, o primeiro contato com a realidade carcerária foi impactante e imensuravelmente construtivo. Que venham as próximas visitas.
[1] Alusão ao poema “O Bicho” de Manuel Bandeira que vinha todo o tempo em minha mente: “… não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, Meu Deus, era um Homem”.
[2] No pavilhão da Disciplina havia um preso com a perna quebrada há 10 dias resultado de uma queda após tentativa de fuga.